A fronteira final
A recente viagem ao espaço mostra nova etapa da corrida espacial e desnuda a amplitude da ignorância ecológica em que a cultura capitalista vive.
O atrito geopolítico entre EUA e China alcançou o espaço. Nos últimos anos, o programa espacial chinês vem acumulando avanços importantes, incluindo uma visita não tripulada à Lua.
Para não ficar atrás, a NASA encomendou em 2017 uma espaçonave para a gigante da indústria de armamentos Lockheed Martin e solicitou ao analista de diversidade do RH que montasse uma tripulação mais representativa do entendimento contemporâneo de gênero e raça.
O objetivo era emular a mística das viagens da Guerra Fria, atraindo os olhos do mundo para os EUA, uma celebração de sua superioridade e das conquistas de uma suposta Humanidade unida e tecnológica - agora, um pouco mais consciente de sua diversidade.
Infelizmente os olhos estavam voltados para o ataque que os próprios EUA promovem contra o Irã, obedecendo as vontades de Israel. E pior, vi pouca ou nenhuma reflexão sobre o estado do mundo e da humanidade. As primeiras imagens da Terra vista do espaço em 1960 foram fundamentais para criar a gramática do movimento ambientalista e avançar na utopia de uma humanidade em harmonia consigo mesma e com seu planeta.
Porém, a atual casta bilionária suprimiu do espaço esse poder imaginativo. O espaço é uma fronteira de exploração, colonização e extração. Um universo de recursos e possibilidades que nos permitiriam ignorar qualquer sentimento de humildade e cautela, sentimentos derivados de qualque reflexão sobre a ecologia dos humanos na Terra.
Uma vez que os humanos e a Terra tenham sido explorados ao limite, o espaço se abriria para novas colônias na Lua e em Marte, para a mineração de asteróides até, finalmente, a viagem para outras galáxias. Tudo parece tão próximo, inclusive. Grande parte de nosso entretenimento atual é sobre o espaço e sua colonização. É o próximo passo. É natural. É lógico. Vamos olhar para cima, e não para as raízes e rizomas no solo sobre nossos pés.
Acontece que a ficção científica é apenas ficção. Ninguém que sustenta em público a fantasia de colonizar Marte entra em detalhes sobre sua ecologia, nem sobre os impactos sobre a fisiologia humana.
Estações Espaciais orbitais custam milhões de dólares por dia. São projetos de pesquisa tecnológica e de vaidade de superpotências, gastando recursos excedentes para manter pessoas artificialmente no espaço. Seu oxigênio, seu ar, tudo ali dentro deve ser enviado diretamente da Terra. Astronautas enlouquecem no isolamento, seus músculos se desfazem, seus olhos perdem o formato esférico, os corpos definham. Nossa fisiologia evoluiu e é inerente ao planeta Terra.
Além disso, mal compreendemos as complexidades da vida na Terra, como a tecnologia irá fazer outro planeta prosperar se está matando o único que temos? Não existem experimentos que recriem condições bióticas para espécies simples, como baratas, nem experimentos em larga escala de confinamento humano. Lembram das Biosferas? Os experimentos que trancavam cientistas e biomas acabaram sempre em desarranjo ecológico e fome.
No romance de ficção científica Aurora, de Kim Stanley Robinson, uma tripulação saiu da Terra em uma nave geracional para colonizar a estrela mais próxima, Tau Ceti. Uma nave geracional é uma nave onde gerações de pessoas vivem, procriam e morrem até chegar ao destino. Na história, a nave é frágil, as espécies vivas que servem desde alimento até tratamento de água sofrem mutações e variações estranhas e os humanos vivem em penúria. Ao chegar, o novo planeta possui uma biologia tóxica e mata todos os que se aventuraram a descer ao planeta.
E a ficção científica sempre lança mão de invenções como naves geracionais, “buracos de minhoca”, hiperdrives, portais entre outros para explicar como chegaríamos em outra estrela. Porque a realidade é que não temos energia disponível para acelerar a massa de uma espaçonave grande o suficiente para nos proteger da radiação cósmica e de detritos espaciais até outra estrela. Estamos presos aqui. No máximo a Lua. Mas vale a pena?
A verdade é que já vivemos em uma espaçonave, e estamos comendo suas paredes antes de desvendar todos os seus segredos. Aliás, já até fizemos contato com raças alienígenas inteligentes mas não tecnológicas como os golfinhos, e outras de biologia fascinante como polvos e fungos. Temos muito a fazer por aqui ainda.
Gostaria que os dias que a Artemis II ocupou nos noticiários tivessem sido capazes de suscitar uma reflexão assim. Mas tudo aconteceu no meio de uma guerra bárbara pelo petróleo iraniano, enquanto os bilionários nos avisam que destruirão nossas economias, empregos, direitos e democracia, então ninguém prestou atenção.





A M E I !!